Por que existimos
Tem uma tensão velha na ciência política: presença parlamentar é uma métrica imperfeita para medir desempenho. Quem estuda Congresso sabe — e a gente também sabe. Trabalho legislativo de verdade acontece em comissões, em emendas, em articulação de base, em diálogo com a sociedade civil. Sessão plenária é só uma fatia da rotina de quem foi eleito para representar o país.
E ainda assim, no imaginário público, a cadeira vazia ressoa. Ressoa porque é o ponto onde a obrigação regimental do mandato se torna visível e contável. Existe um lugar marcado, um quórum a cumprir, um voto a registrar — e existe um deputado que deveria estar ali. Quando não está, sobra um símbolo difícil de explicar para quem paga o salário.
O Cadeira Vazia nasce nessa tensão. Não para resolver — porque a tensão é real e legítima dos dois lados — mas para tornar o dado visível, recorrente e honesto. A gente publica todos os dias o que a Câmara dos Deputados já publica em portais oficiais, só que reorganizado, calculado e narrado de um jeito que o cidadão consegue acompanhar sem ler diário oficial.
O que somos
Somos um observatório independente de presença parlamentar na Câmara dos Deputados.
Cruzamos dados primários da API pública da Câmara — a mesma fonte que o Congresso disponibiliza para qualquer pessoa — e construímos um pipeline automatizado que, todo dia, calcula quem compareceu e quem faltou às sessões plenárias deliberativas do dia anterior. O resultado vira boletim diário no LinkedIn, arquivo navegável neste site, e uma página de perfil para cada um dos cerca de 513 deputados em exercício na legislatura corrente.
O critério de “ausência” não é nossa opinião — é o que o Regimento Interno da Câmara estabelece. O Art. 236 e o Art. 235 § 6º do RICD fixam que sessão plenária deliberativa é a presença obrigatória do parlamentar; o que acontece em comissão, em viagem oficial autorizada ou em licença formal não entra na conta de ausência. A gente trabalha com esse recorte por uma razão simples: é o único critério que tira o cálculo do plano da opinião e coloca no plano do fato citável. Pode ler nossa metodologia para ver como exatamente o número é montado, peça por peça.
Disclaimers existem. A gente publica todo dia uma nota explicando o que a métrica prova — que a cadeira esteve vazia naquele dia, em sessão obrigatória — e o que ela não prova — que o deputado é ruim, preguiçoso, ou está se eximindo do mandato. O dado é o dado. O julgamento fica com quem lê.
O que NÃO somos
Tão importante quanto dizer o que somos é dizer o que escolhemos não ser. O Cadeira Vazia foi desenhado por exclusão tanto quanto por adesão — é em parte definido pelo que recusa.
Não somos rede social política. Não fazemos enquetes, não pedimos engajamento por revolta, não convertemos a indignação do leitor em alcance. O tom é factual, com ironia civil controlada quando o dado pede — mas nunca panfletário, nunca personalista.
Não cobrimos quem está falando alto. Quem ocupa a tribuna, quem viraliza no plenário, quem aparece no jornal do dia seguinte — esse já tem cobertura de sobra. O nosso recorte é exatamente o inverso: a gente acompanha quem não está lá, o assento marcado e desocupado, a presença ausente. É um nicho deliberado.
Não somos jornalismo investigativo nem watchdog ONG. Não denunciamos esquemas, não investigamos paradeiro paralelo, não emitimos parecer sobre desempenho. Quando, no blog longform, tocamos em “onde o deputado pode ter estado”, a linguagem é sempre condicional, a fonte é sempre arquivada com data, e o registro é sempre claro: a gente mostra indícios públicos, não sentencia.
Não somos panfleto político. Sem partido. Sem coalizão. Sem alinhamento. Quem aparece como faltante nos boletins aparece pelo critério regimental — não pela cor da legenda. Se um dia o ranking se inverter, vai inverter na narrativa também.
Não somos texto gerado por IA. O pipeline é automatizado e usa ferramentas modernas — mas o tom, a edição, o critério editorial e a curadoria do que vira boletim são humanos. A automação é meio; o juízo editorial é fim.
Quem está por trás
O Cadeira Vazia é tocado por uma pessoa só. Não é mistério, não é equipe fantasma: é projeto pessoal de portfólio com ambição de virar produto, conduzido por um cientista de dados com formação em ciência política e experiência em pipelines de dados públicos.
A independência aqui é estrutural, não retórica. Sem partido. Sem patrocínio com interesse de quem é coberto. Sem investidor político. O projeto é financiado pelo próprio operador, com infraestrutura de baixo custo (hosting gratuito, dados públicos, código aberto sempre que possível). O dia em que isso mudar — se mudar — vai virar nota institucional aqui mesmo, com a mesma transparência que a gente cobra dos outros.
A escolha de operar solo tem custo: cadência editorial mais lenta, equipe enxuta, menos canais simultâneos. Mas tem benefício: ninguém entra com agenda própria no critério, ninguém atravessa o juízo editorial, ninguém negocia o que vira manchete e o que fica de fora. O produto sai como pensado.
Como nos acompanhar
O canal principal é o LinkedIn do Cadeira Vazia, onde o boletim sai diariamente em formato PDF navegável. Aqui no site fica o arquivo permanente — todos os boletins, todas as páginas-perfil de deputado, e o blog longform semanal quando ele entrar no ar.
Se você é jornalista, pesquisador, ativista ou só cidadão curioso, fique à vontade para usar nossos dados em matérias, estudos ou conversas. A única coisa que pedimos é: cite a fonte, leia a metodologia antes de tirar conclusão forte, e, se possível, mantenha a linguagem condicional que a gente cultiva — “a cadeira esteve vazia”, não “o deputado foi preguiçoso”. A diferença parece pequena. Não é.
Boa leitura.